A Importância da Mídia para a Transformação de Problemas Sociais em Problemas Públicos

rede-esgoto                   Imagem: http://desciclopedia.org/wiki/Rede_Globo

Enfocando mais diretamente a área de segurança pública, discorreremos sobre a importância da mídia para a transformação de problemas sociais em problemas públicos, sob a perspectiva de SILVA (2007) [1].

Segundo o autor, a grande imprensa do Rio de Janeiro constrói a noção de “violência urbana” usando o pressuposto básico de que a imprensa em conjunto com outros atores sociais, além de participar da produção e reprodução simbólica da “violência urbana”, é decisiva em sua definição como problemática obrigatória, elevando a “violência urbana” a uma condição privilegiada de ser um dos “problemas públicos” mais destacados atualmente.

Ressalta-se que a caracterização do Rio de Janeiro como cidade violenta é um tipo de representação que perpassa os discursos sociais, pois é diariamente reafirmado por meio de mecanismos de construção simbólica e destacado nos noticiários de grande circulação do Brasil. Embora outras capitais do país apresentem índices de criminalidade parecidos ou até mesmo superiores (CARVALHO, 2001) [2], o espaço dado pela imprensa aos problemas relacionados à segurança pública no Rio de Janeiro é maior em relação à mesma temática em outros locais do país.

A centralidade midiática do Rio de Janeiro é devida, além de problemas conjunturais, a um conjunto de cismas que se construíram a partir de múltiplos fatores e de ordens diversas. Uma vez que o Rio de Janeiro é uma cidade observada por todos os brasileiros, já que, na cidade, a visibilidade da violência criminal é associada em maior grau ao crime organizado. Além de ter sido capital federal, é cidade portuária, centro turístico nacional e internacional, e sede das principais empresas de comunicação do país, conforme Misse (1999) [3]. Ou seja, todo esse simbolismo histórico-cultural dá visibilidade e maximiza tudo que ocorre no Rio de Janeiro, os crimes, que são comuns a outras cidades, assumem proporções capazes de taxarem-na como cidade violenta.

Os jornalistas justificam o grande espaço que dão às questões de ”violência urbana” no Rio de Janeiro com o argumento de que é um reflexo do aumento dos índices de violência nas últimas décadas, que segundo eles, tem suplantado a garantia dos direitos civis, causando um quadro de insegurança e medo à população fluminense. Ou seja, os jornalistas alegam que não foi o espaço conferido à “violência” que aumentou, mas a “violência” que assumiu dimensões sem precedentes, dotando-se de maior visibilidade social, logo, maior visibilidade midiática. Diante dos fatos, os jornalistas se consideram como agentes comprometidos com o interesse público, pois definem a notícia como o relato de fatos na qual a importância lhes é imposta de forma já conhecida.

Observa-se também, que as notícias sobre “violência urbana” ganhou mais espaço na mídia, conforme a classe média e média alta passou a percebê-la socialmente e se preocupar. Conforme a violência urbana passou a ser percebida como uma realidade menos distante das classes sociais supracitadas, passou a ganhar espaços importantes da grande imprensa como uma problemática obrigatória. Uma vez que a violência se aproximou de espaços tradicionalmente intocados e afetou segmentos sociais com capacidade de reação e mobilização social.

Em contrapartida, as preocupações das classes sociais citadas alcançam maior espaço midiático, que as colocam como de interesse público geral, e consequentemente tem melhores respostas institucionais, já que a possibilidade dessas questões anunciadas na mídia, receberem a atenção das autoridades competentes é maior do que as questões que não conseguem um maior alcance midiático às suas demandas.

Concluímos que o aumento da visibilidade da “violência urbana” na imprensa, não é somente pelo aumento quantitativo de espaço nos jornais e na mídia de modo geral, mas também por uma mudança no modo de apreender e noticiar os fatos. Já que, desde que a temática vira um problema central no imaginário social carioca, os jornalistas se veem na obrigação de lidar com ela, assim, paulatinamente, fazem com que o noticiário sobre a “violência urbana” seja colocado além do simples ato de informar. Assim, criam-se as reportagens ou coberturas de segurança pública, e se dá a politização da chamada “violência urbana”. Por meio dessas coberturas os jornalistas mobilizam a opinião pública para essas questões e outras relacionadas. Os jornalistas consideram essa mobilização como sua contribuição para lidar com os problemas sociais, e que ao lidar com eles dessa maneira, a imprensa não estaria apenas informando, e sim fazendo “política de segurança”.

[1] SILVA, E.M.A. Das Reportagens Policiais às Coberturas de Segurança Pública: representações da violência urbana em um jornal do Rio de janeiro [Tese de Doutorado]. Niterói: Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense; 2007.

[2] CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil; o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

[3] MISSE, Michel. Malandros, Marginais & Vagabundos & a acumulação social da violência no Rio de Janeiro. Tese de Doutorado em Sociologia, Rio de Janeiro: IUPERJ, 1999.